Especial: Monster (Mangá)

A missão de todo médico é salvar vidas. Mas, e se uma pessoa que você salvou da morte certa quando criança crescesse para se tornar um dos mais cruéis e meticulosos assassinos de todos os tempos? Dete-lo seria sua responsabilidade? E se você não fizesse nada, o sangue de todas as vítimas do assassino também estaria em suas mãos? Esse é o dilema do Dr. Tenma nesse incrível mangá policial de suspense e terror psicológico. 




Monster 
Publicação: 1994-2001 (Japão) \ 2012-2015 (Brasil)
Volumes: 18 de 256 páginas (162 capítulos)
Autor: Naoki Urasawa 

Sempre gostei de animes e alguns dos meus desenhos preferidos na infância vinham da terra do sol nascente, mas em relação aos mangás confesso que tinha uma certa resistência, talvez por ser em preto e branco, por ser impresso, na época, em papel ruim, ou simplesmente por preferir seguir a versão animada de alguma obra, ao invés de a versão impressa. 

Mas, embora tenha lido alguns mangás realmente excelentes, como Record of Lodoss War, por exemplo, foi com Monster, do genial criador Naoki Urasawa, que finalmente quebrei essa barreira e passei a colecionar títulos exclusivamente em mangás, esperando com ansiedade por cada novo volume. 

Monster é uma série em mangá de 162 capítulos divididos em 18 volumes, publicados no Japão entre 1994 e 2001 e lançada completa no Brasil pela editora Panini, também em 18 volumes, com periodicidade bimestral, a partir de 2012.

Contando com uma bela arte em estilo realista e um alto nível de suspense, tensão e terror psicológico, Monster se apoia numa boa trama, num protagonista com uma grande curva de aprendizado e num vilão carismático, além de um elenco de ótimos coadjuvantes, para nos trazer um dos melhores mangás policiais já feitos. 

A série mostra a trajetória de um brilhante neurocirurgião japonês, o Dr. Kenzo Tenma, que tem sua vida transformada ao decidir salvar a vida de um menino que deu entrada no hospital de Dusseldorf, na Alemanha, em estado grave, após ter sobrevivido a um massacre familiar junto de sua irmã gêmea. 

O problema é que para operar o menino, Tenma deixou de atender ao prefeito da cidade que acabou falecendo nas mãos de outro médico. Isso não agradou ao diretor do hospital, de quem a filha, Eva, Tenma era noivo. O diretor era um homem ambicioso e corrupto que não compartilhava da ética e dos valores do futuro genro e declarou que, a partir dali, suas chances de promoção estavam encerradas.

Ao ver Tenma rebaixado e sem perspectivas de ascensão na carreira, Eva terminou o noivado, deixando o cirurgião ainda mais arrasado.

Pouco tempo após a cirurgia, os gêmeos desapareceram misteriosamente e os principais opositores de Tenma no hospital, incluindo o diretor, foram mortos, colocando o doutor sob suspeita. Mas como não havia provas, o caso foi arquivado.

Nove anos depois, Tenma opera uma vítima de atropelamento, um criminoso suspeito de participar de uma série de mortes de casais na Alemanha. Após ser salvo por Tenma, o paciente confessa estar ligado a essas mortes, e diz que um "monstro" estaria por trás de tudo. Certa noite, ao ver seu paciente em fuga, Tenma resolve persegui-lo até um prédio abandonado. É ali que o doutor reencontra Johan, o garoto de quem ele salvou a vida no passado. 

Johan admite ter matado o diretor e os outros médicos naquela noite, em agradecimento ao que Tenma fez por ele. O garoto, agora um homem, não parece sentir qualquer emoção ou arrependimento por tirar vidas humanas, e foge deixando Tenma aterrorizado.

Naquela altura, a carreira de Tenma decolava rapidamente. Competente e ético ao extremo, o doutor era adorado pelos pacientes e colegas, e logo assumiu o cargo que lhe era de direito, atuando como diretor cirúrgico do hospital.

Vendo seu ex-noivo novamente no auge, Eva tenta reatar o noivado, mas é recusada por Tenma, que a considera uma pessoa mesquinha e interesseira. Sentindo-se rejeitada, Eva decide se vingar procurando a polícia e contando histórias que incriminam o doutor.  

Sem escolha, Tenma começa aí sua vida de fugitivo, tentando encontrar Johan para livrar-se das acusações e impedir que seu ex-paciente volte a cometer novos crimes. Em seu encalço, Tenma tem um obstinado investigador conhecido como inspetor Lunge. Muito metódico e dono de uma invejável memória, Lunge sempre suspeitou de Tenma e agora, com a fuga do médico, tem o motivo perfeito para iniciar uma caçada implacável e capturar sua "presa".

Todo o resto da série consiste basicamente em ver Tenma na busca por pistas que o levem a Johan ou revelem algo sobre seu passado misterioso, ou então fugindo da polícia e da figura obcecada do inspetor Lunge, que não acredita na existência de Johan e acha que esse "monstro" é uma invenção de Tenma para não ser condenado.

Mas o que poderia ser uma jornada longa e até meio cansativa se revela uma experiência incrível e muito estimulante, tamanha a qualidade do roteiro e a inesgotável capacidade do autor de nos apresentar novos e interessantes personagens no decorrer da trama, sem no entanto se descuidar dos principais.

A história principal se desenrola sem pressa, mas com eventos e personagens sendo revelados na hora certa e se encaixando perfeitamente como peças num quebra-cabeça. E nenhum personagem, por mais secundário que seja, passa pela trama sem deixar algo de si, numa verdadeira aula de como criar coadjuvantes com profundidade, quase como pessoas reais. 

Além dos nomes já citados, destaca-se também Nina Fortner, irmã de Johan. Nina, ou Anna (seu nome real), é uma das personagens mais complexas da série e, junto com Tenma, é das que sofre maiores transformações. Por ter perdido a memória, Nina não tem recordações do tempo em que vivia com seu irmão, antes de ser adotada, e conforme as lembranças vão voltando, o próprio leitor por vezes acaba se colocando no lugar dela, vivenciando e se surpreendendo com fatos que mostram mais do passado sombrio do "monstro".

Apesar de o autor por vezes passar a ideia de que Johan poderia ser mais do que um humano comum, um monstro real, isso é meramente interpretativo.

A história, como um todo, tem os dois pés na realidade, inclusive trazendo alguns elementos históricos e culturais das regiões e da época em que se passa, o que enriquece bastante a leitura. E praticamente todas as edições vem com um glossário no final que explica os termos em alemão, o contexto histórico e curiosidades sobre os locais e as referências de cada volume.

Vale destacar também o bom trabalho da Panini na publicação da série. Além do glossário já citado, as capas em papel cartão são bonitas e o miolo, apesar de ser em "papel jornal", tem boa gramatura e não possuem borrados, nem permitem ver o que está do outro lado da folha, de modo que a bela arte do mangá não fica prejudicada. Além disso, diferente da Conrad, que descontinuou a série no volume 10, a Panini publicou todos os 18 volumes, alternando os lançamentos com outra série de sucesso do mestre Naoki Urasawa, 20th Century Boys. 

Indicada ao Eisner Award duas vezes como melhor série continuada em 2007 e 2008, Monster é muito mais do que um mangá de suspense, é um dos melhores trabalhos já feitos no gênero e uma obra digna de ser lida com entusiasmo e interesse até o seu ótimo e intrigante final.





Curiosidade: Muito elogiada pela crítica, Monster acabou rendendo também um anime de 72 episódios produzido pela Madhouse e exibido na TV japonesa entre os anos de 2004 e 2005, e chegou a ser sondada pela HBO para a produção de uma série de TV.


Matéria produzida e publicada por Marcelo Delmanto em 18/12/2016.

Artigos semelhantes:
Mangá - Holly Avengers

Anime - Knights of Sidonia
Anime - Elfen Lied